O governo de Javier Milei confirmou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que estava proibido de deixar o país por ordem judicial, entrou na Argentina e embarcou de lá para os Estados Unidos. “Estariam dadas as condições para que, se o Brasil assim decidir, a relação diplomática seja diretamente rompida”, disse à Sputnik um especialista.
A Argentina se tornou o centro de um novo conflito diplomático com o Brasil e enfrenta um episódio que pode agravar uma relação bilateral que já atravessava seu pior momento em décadas.
A Direção Nacional de Migrações informou que o senador entrou no país na noite de 27 de outubro pela Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, no nordeste argentino, acompanhado da esposa e das duas filhas. Pouco depois, embarcou em um avião particular no aeroporto de Puerto Iguazú. A confirmação veio após um dia inteiro em que o governo havia negado a entrada.
A suspeita de participação direta do Executivo argentino ganhou força após declarações de Simón Levy, presidente do Conselho das Américas, que afirmou que a operação foi coordenada pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, com a participação do presidente argentino. “Ele está vivo graças à intervenção do presidente Milei”, declarou.
Em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou a saída como um dos episódios mais vergonhosos da história política do país. O mal-estar aumentou porque o Brasil havia alertado as autoridades argentinas sobre um possível risco de fuga, enquanto elas negavam a passagem do senador.
Derrotado no segundo turno por uma diferença de 4,4 milhões de votos, Flávio Bolsonaro recebeu no dia seguinte uma ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes para entregar seus passaportes em 24 horas, no âmbito de uma investigação por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A medida abrangia seus documentos brasileiros, tanto o comum quanto o diplomático, além do italiano.
O governo argentino sustenta que a proibição se aplica apenas dentro do Brasil e que, sem um pedido de captura internacional ou um alerta da Interpol, não havia base legal para impedir o senador de cruzar a fronteira. Já a família entrou com documentação válida e sem impedimentos, embora horas antes tivesse comunicado que não havia registro de entrada em nome dele e dos demais.
O porta-voz presidencial argentino, Adrián Ravier, limitou-se a descartar um pedido de asilo, enquanto o Ministério da Segurança Nacional negou à imprensa brasileira que o senador tivesse cruzado a fronteira. O presidente Donald Trump, por sua vez, anunciou publicamente a chegada de Flávio Bolsonaro aos EUA, onde ele aterrissou pela manhã.
O episódio ocorre em meio a uma escalada que começou em 26 de julho, quando Milei viajou a São Paulo para o lançamento da candidatura de Bolsonaro e chamou Lula de “presidiário” e “ladrão”. Em 4 de agosto, o Brasil rebaixou o nível das relações diplomáticas para encarregados de negócios e, após o segundo turno, a Argentina se tornou o único país sul-americano a não reconhecer formalmente a vitória de Lula.
Também não é a primeira vez que a Argentina aparece na estratégia do bolsonarismo diante da Justiça brasileira. Em 2025, Moraes determinou a prisão preventiva de Léo Índio, primo dos filhos de Jair Bolsonaro, que entrou no país com documento de identidade apesar de ter o passaporte cancelado. Naquele ano, a Polícia Federal encontrou no celular do ex-presidente um rascunho de pedido de asilo à Argentina.
No âmbito interno, a deputada Marcela Pagano, ex-integrante do partido de Milei, apresentou uma denúncia criminal à Justiça Federal de Puerto Iguazú para que seja investigada a passagem do senador por Misiones.
Novo ato de hostilidade?
“A decisão da Argentina de colaborar com a fuga de Flávio Bolsonaro leva uma relação diplomática, que já estava no pior momento da história desde a redemocratização do Brasil, em 1985, a uma situação que pode levar diretamente à ruptura”, disse à Sputnik o analista internacional Gabriel Puricelli.
Segundo o especialista, a Argentina “com essa colaboração, comete um ato hostil contra seu principal parceiro comercial, vizinho e parceiro político em instâncias como o Mercosul”. “Mais uma vez, o governo argentino confunde partido com Estado, presta colaboração a um homem da internacional reacionária, à qual pertencem tanto Bolsonaro quanto o presidente Milei”, afirmou.
O analista destacou que o Executivo “usa a polícia aeroportuária para escoltar Flávio até o aeroporto de Puerto Iguazú e a Migrações para autorizar a entrada de uma pessoa que não poderia ter saído legalmente do Brasil“, algo que, segundo ele, “o governo argentino sabia”. Em sua avaliação, isso representa “uma ruptura total com qualquer forma de decoro diplomático”.
Até 26 de outubro, Puricelli considerava como cenário mais provável que “as relações avançariam lentamente rumo à normalização”. “Não porque Milei fosse pedir desculpas, mas porque já não havia nenhuma utilidade para Lula responder”, esclareceu. Esse cenário ficou para trás, segundo ele: “Estávamos na casa menos 5, retrocedemos para a casa menos 25”, comparou.
Em entrevista à Sputnik, Leandro Morgenfeld, analista internacional e pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet), considerou que a passagem do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pela Argentina agrava uma situação que já estava deteriorada. “Isso está gerando uma crise diplomática entre Argentina e Brasil, que têm uma relação muito tensa em razão dos insultos contínuos de Milei a Lula“, alertou.
O pesquisador destacou a responsabilidade do governo argentino. “O governo sabia que Bolsonaro não podia sair do país e, ainda assim, colaborou com essa fuga”, afirmou, em linha com versões que apontam para uma coordenação entre Buenos Aires e Washington para viabilizar o traslado do senador aos Estados Unidos, com escala em Guayaquil, no Equador.
‘Vitória de Lula foi um freio aos EUA na América Latina’
Puricelli alertou que “estariam dadas as condições para que, se o Brasil assim decidir, a relação diplomática seja diretamente rompida”. No entanto, descartou esse desfecho. “Suspeito que não farão isso”, afirmou, lembrando que, desde o início da crise, as autoridades brasileiras “apostaram na desescalada e no uso da linguagem diplomática“.
O analista sustentou que “Lula sabe que é o único estadista nessa relação e que, portanto, depende dele normalizá-la”. “Não interessa ao Brasil, assim como, evidentemente, não interessa à Argentina, manter uma relação tensa”, acrescentou, ao comentar o vínculo entre as duas maiores economias do Mercosul.
Puricelli lembrou ainda que “Lula já havia deixado claro na segunda-feira que não gostou nada da decisão tomada por Alexandre de Moraes de pedir o passaporte de Flávio Bolsonaro”. Nesse contexto, considerou que o senador, abandonado nas últimas horas por seus próprios aliados, “com sua fuga, acaba facilitando muito as coisas para Lula”. “No domingo, houve um terremoto político com a vitória de Lula, mas agora há outra notícia de primeira magnitude, que é a fuga de Bolsonaro. Seu irmão, Eduardo, já havia dito que Flávio deveria ir embora em caso de derrota. A novidade é toda a rede de participações da Argentina e dos EUA”, afirmou Morgenfeld.
Para o pesquisador, o resultado eleitoral no Brasil também teve uma dimensão regional que vai muito além da relação bilateral. “A vitória de Lula foi um freio à interferência dos EUA na região, mas agora essa interferência assume outro caminho com a operação de fuga de Flávio Bolsonaro, cuja imagem desmorona com essa saída, abandonando o Brasil”, conclui.
Fonte: Sputnik Brasil


