Passado pouco mais de um mês desde o lançamento da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) ao Palácio do Planalto, líderes do chamado “Centrão” passaram a encarar o movimento menos como uma estratégia para livrar Jair Bolsonaro (PL) da prisão e mais como uma candidatura efetiva à Presidência da República.
Escolhido pelo próprio ex-presidente para representar o bolsonarismo no próximo pleito, o senador de 44 anos surge como o principal nome da direita para enfrentar a provável candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A decisão, no entanto, frustrou partidos que trabalhavam para viabilizar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como alternativa eleitoral.
Ao optar por um integrante da família, Bolsonaro buscou preservar seu espólio político dentro do núcleo mais fiel do bolsonarismo, contrariando interesses do “Centrão”. Com perfil mais pragmático e oito anos de experiência no Senado, Flávio superou, na disputa interna, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o irmão Eduardo Bolsonaro, atualmente nos Estados Unidos.
Para lideranças partidárias, a escolha dificulta a construção de uma ampla coalizão. O deputado Claudio Cajado (PP-BA), vice-presidente do Progressistas, avaliou que a estratégia mantém a hegemonia da direita concentrada nos Bolsonaros, mas reduz as chances de vitória sem o apoio do centro político.
No início da pré-campanha, Flávio tentou atrair partidos como PP, União Brasil e Republicanos, que já demonstravam distanciamento do governo Lula. O senador chegou a convidar os presidentes dessas siglas para reuniões logo após o anúncio da candidatura, na tentativa de consolidar apoios.
Apesar disso, o encontro não eliminou as dúvidas sobre a real disposição de Flávio em disputar o Planalto. À época, caciques partidários interpretaram o movimento como uma forma de pressionar o Congresso a avançar na tramitação da anistia, percepção reforçada quando o senador declarou haver um “preço” para desistir da candidatura.
Em sua primeira coletiva como pré-candidato, realizada em 7 de dezembro, Flávio afirmou que poderia não levar a candidatura até o fim e condicionou essa decisão ao andamento do projeto de anistia que poderia beneficiar Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses.
Quem é Flávio Bolsonaro
- Senador pelo Rio de Janeiro e primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro;
- Tem 44 anos e nasceu na capital fluminense em 30/4/1981;
- Foi eleito a um cargo eletivo pela primeira vez em 2003, se tornando o deputado estadual mais jovem da então legislatura;
- Esteve no cargo até 2019, quando foi para o Senado;
- Atualmente ocupa a presidência da Comissão de Segurança Pública da Casa.
Surpresa nas pesquisas
A mudança de cenário ocorreu em meados de dezembro, quando, pela primeira vez, pesquisas de intenção de voto apontaram Flávio Bolsonaro como o opositor com melhor desempenho contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual segundo turno. Levantamento da Genial/Quaest, divulgado em 16 de dezembro, mostrou Lula com 46% das intenções de voto, contra 36% do senador bolsonarista.
Com o resultado, a base do bolsonarismo reagiu rapidamente de forma positiva. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que Jair Bolsonaro é “uma máquina de transferir votos” e anunciou que, já em janeiro, o partido entraria em uma campanha “de guerra” para conquistar o apoio do chamado “Centrão”.
Consultados pelo Metrópoles pouco mais de um mês após o anúncio da pré-candidatura, dirigentes de partidos de centro, sob reserva, admitiram que o desempenho de Flávio nas pesquisas alterou o tabuleiro político. A avaliação ganhou força especialmente porque o senador passou a apresentar resultados iguais ou superiores aos de Tarcísio de Freitas, até então principal aposta do grupo.
Na quarta-feira (14/1), Flávio voltou a aparecer em segundo lugar em nova pesquisa Genial/Quaest, desta vez no cenário de primeiro turno, com 23% das intenções de voto, atrás de Lula, que alcançou 36%. Tarcísio aparece em terceiro, com 9%. Embora Lula vença ambos no segundo turno, o governador paulista apresenta uma diferença menor de pontos percentuais em relação ao petista.
Ao mesmo tempo, líderes partidários destacam que, apesar do bom desempenho, Flávio Bolsonaro ainda enfrenta elevada rejeição. Esse fator, segundo avaliações internas, pode limitar seu crescimento junto a um eleitorado que demonstra resistência ao sobrenome Bolsonaro.
Mesmo com a candidatura considerada bem lançada, o avanço de Flávio ainda não foi suficiente para garantir o apoio formal dos partidos do “Centrão”. Dirigentes avaliam que o cenário atual pode resultar em uma pulverização de candidaturas de direita no primeiro turno, frustrando a estratégia inicial de unificação em torno de Tarcísio.
Entre os nomes colocados estão os governadores Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás. No entanto, caciques do União Brasil afirmam, sob reserva, que Caiado não possui apoio consolidado nem dentro da própria sigla.
Dirigentes do partido também ressaltam que a legenda ainda não definiu oficialmente qualquer candidatura ao Planalto para 2026. Além disso, a pré-candidatura de Caiado não teria respaldo dentro da federação que o União Brasil pretende formar com o PP.
Apesar disso, lideranças admitem que, em dezembro, não se cogitava apoiar Flávio Bolsonaro, mas avaliam que esse cenário pode mudar caso o senador consolide sua viabilidade eleitoral. Um cacique do bloco avalia que, nesse contexto, a federação União Brasil-PP poderia até pleitear uma vaga na chapa.
Procurado, Ronaldo Caiado afirmou que não pretende retirar sua candidatura à Presidência. Paralelamente, líderes partidários e o próprio PL não descartam que a vaga de vice-presidente seja indicada pelo “Centrão”, desde que Flávio adote uma postura mais alinhada ao centro político. Valdemar Costa Neto reconheceu a possibilidade, mas reforçou que a decisão final caberá a Jair e Flávio Bolsonaro.


