O Sindicato dos Urbanitários de Alagoas rechaça de forma veemente o relatório elaborado por consultoria independente contratada pelo Governo do Estado, que classifica a Companhia de Saneamento de Alagoas (CASAL) como “tecnicamente ineficiente” para operar o abastecimento de água e o esgotamento sanitário em municípios do sertão alagoano. Para os trabalhadores do saneamento, o documento ignora fatos históricos, desconsidera escolhas políticas recentes e, sobretudo, serve para justificar uma nova etapa de privatização que já se mostrou fracassada.
Segundo os Urbanitários, a realidade é exatamente oposta à narrativa do relatório: a CASAL não entrou em crise por incapacidade técnica ou gestão temerária, mas vem sendo sucateada propositalmente ao longo dos últimos anos. Até 2020, mesmo enfrentando dificuldades estruturais e operando em áreas historicamente negligenciadas pelo mercado, a companhia conseguiu alcançar superávit financeiro e garantir o abastecimento de água em regiões de difícil acesso, especialmente no Alto Sertão, graças ao mecanismo do subsídio cruzado — modelo em que áreas mais rentáveis sustentam o atendimento às localidades mais pobres e distantes.
Com a privatização da distribuição de água e esgoto, apresentada pelo Governo como solução moderna e eficiente, essa lógica foi quebrada. O que se viu, na prática, foi a lapidação da CASAL, retirada de receitas estratégicas e perda de capacidade de investimento. O resultado é uma companhia empurrada artificialmente para uma situação deficitária, enquanto o serviço entregue à iniciativa privada passou a obedecer prioritariamente à lógica do lucro, e não ao interesse público.
As consequências dessa escolha recaem diretamente sobre a população. Hoje, Alagoas vive um verdadeiro caos no abastecimento de água, sobretudo no Alto Sertão. Cidades como Pão de Açúcar, Estrela de Alagoas, Minador do Negrão, Palmeira dos Índios e Arapiraca chegam a passar mais de 30 dias sem água, cenário impensável antes da privatização. Não por acaso, os protestos populares se multiplicaram após a entrega do serviço à iniciativa privada, evidenciando que o projeto vendido como solução agravou os problemas históricos do saneamento.
A presidenta do Sindicato dos Urbanitários, Dafne Orion, é categórica ao afirmar que o Estado precisa reconhecer os erros cometidos. “É preciso olhar pelo retrovisor da história e ter humildade para assumir equívocos. A chamada remodelação da CASAL, por meio da concessão da distribuição de água e esgoto, da forma como foi feita, tirou a companhia de uma situação superavitária para uma situação deficitária. E, o mais grave, piorou o atendimento à população”, afirma.
Para o sindicato, pensar agora em uma nova privatização, desta vez voltada à gestão da água, é aprofundar o desastre. “Isso é condenar a população, sobretudo a mais carente, à seca permanente e transformar a água — que é um bem universal e um direito humano — em mera mercadoria para gerar lucro a grandes acionistas”, alerta Dafne.
Outro ponto ignorado pelo relatório é o impacto social e trabalhista da privatização. A piora do serviço anda lado a lado com a precarização da mão de obra. Empresas privadas do setor não têm compromisso social, desvalorizam os trabalhadores, chegando a pagar salários abaixo do mínimo legal a profissionais do saneamento, o que foi revertido pelo Sindicato. Esse modelo compromete a qualidade do serviço, a segurança operacional e o próprio futuro do setor.
O Sindicato dos Urbanitários reforça que atua como um Sindicato Cidadão, preocupado não apenas com os direitos dos trabalhadores, mas com o bem-estar de toda a sociedade. “Trabalhadores e população estão sendo prejudicados. E esse quadro tende a se agravar caso avance a privatização da gestão da água. Entregar a água para ser fonte de lucro de poucos significa negar o acesso a uma parcela significativa do povo”, ressalta a presidenta.
Para os Urbanitários, a saída passa pelo caminho oposto ao proposto no relatório: o Estado precisa reassumir a gestão da água, fortalecer a CASAL, investir na sua recuperação técnica e financeira e garantir, de fato, a universalização do acesso à água e ao saneamento. Água não é mercadoria. É vida, é direito e deve estar a serviço do povo alagoano, e não dos interesses do mercado.


