A principal autoridade global em crises alimentares declarou, nesta sexta-feira (22), a existência de fome generalizada na Faixa de Gaza — o primeiro caso registrado no Oriente Médio — e atribuiu a responsabilidade a Israel. Em resposta, o governo israelense negou a conclusão, afirmando que não há fome no território e classificando o relatório como “falso e distorcido”.
De acordo com a Classificação Integrada da Fase de Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), a situação crítica foi identificada na Cidade de Gaza, a maior da região, atualmente alvo de uma nova ofensiva terrestre do Exército israelense. O órgão alerta ainda que, se nada mudar, esse nível de fome poderá se estender para todo o território nos próximos meses.
“Há fome generalizada em Gaza, em pleno no século 21. Uma fome que se desenvolve sob o olhar de drones e da tecnologia mais moderna. Uma fome promovida abertamente por alguns líderes israelenses como uma arma de guerra. A fome de Gaza é prevenível e deve nos assombrar. É uma fome que foi produzida pela vingança e habilitada pela inépcia mundial. Chega. É necessário um cessar-fogo e a abertura das fronteiras. É tarde demais para muitos [palestinos]. Pelo bem da humanidade, nos deixem entrar [em Gaza]”, afirmou o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Tom Fletcher.
O IPC alertou que pelo menos 132 mil crianças menores de cinco anos estão em risco de morte por desnutrição aguda em Gaza. Esse número dobrou desde maio e inclui mais de 41 mil casos graves. Desde o início do conflito, a ONU contabiliza mais de 200 mortes por fome no território.
Em pronunciamento nesta sexta-feira, o subsecretário da ONU, David Beasley Fletcher, declarou que o relatório do IPC representa “uma prova inegável de uma fome evitável”, atribuída à “obstrução sistemática israelense” na entrada de ajuda humanitária em larga escala. Ele ainda destacou que toneladas de alimentos estão retidas na fronteira, impedidas de chegar à população necessitada.
O Ministério das Relações Exteriores de Israel reagiu criticando o relatório, classificando-o como “fabricado sob medida” para servir de propaganda ao grupo Hamas. O governo israelense ainda afirmou que o IPC distorce os fatos e utiliza informações falsas para difamar o país.
“Não há fome em Gaza. IPC, pare de mentir. Todo o documento do IPC baseia-se em mentiras do Hamas, recicladas por organizações com interesses próprios. (…) Relatórios e avaliações anteriores do IPC já se mostraram repetidamente imprecisos e não refletem a realidade no terreno. (…) As leis da oferta e da demanda não mentem — o IPC, sim. Todas as previsões que o IPC fez sobre Gaza durante a guerra se mostraram infundadas e completamente falsas. Essa avaliação também será jogada na desprezível lata de lixo dos documentos políticos”, afirmou o ministério em publicações no X.
O governo de Israel afirmou que mais de 100 mil caminhões de ajuda humanitária entraram em Gaza desde o início do conflito, uma média diária de 146 veículos, abaixo do mínimo recomendado pela ONU, que varia entre 400 e 500 caminhões. Segundo autoridades israelenses, nas últimas semanas “um enorme fluxo de ajuda inundou o território com alimentos básicos”.
O relatório do IPC surge após meses de alertas de organizações humanitárias sobre o agravamento da crise humanitária em Gaza. As restrições israelenses à entrada de alimentos e suprimentos, somadas à ofensiva militar, aumentaram de forma inédita os níveis de fome, especialmente entre crianças. Em julho, a IPC havia classificado a fome no território na fase 5, considerada a mais grave e equivalente a uma “catástrofe humanitária”.
Essa confirmação — a primeira vez que o IPC registra fome generalizada no Oriente Médio — tende a intensificar a pressão internacional sobre Israel, que continua a combater o grupo Hamas em Gaza desde o ataque terrorista de 7 de outubro de 2023.
Especialistas alertam que a intenção de Israel de tomar toda a Cidade de Gaza para eliminar os redutos do Hamas poderá agravar ainda mais a crise de fome. Enquanto isso, a população palestina começou a evacuar áreas da cidade na quinta-feira, diante dos intensos bombardeios israelenses.
Israel inicia operação na Cidade de Gaza
O Exército de Israel anunciou nesta quarta-feira (20) o início dos “primeiros estágios” da tomada da Cidade de Gaza, a área mais populosa da Faixa de Gaza, já controlando seus arredores, conforme informou o porta-voz Effie Defrin.
A operação terrestre, que envolve tanques, soldados e bombardeios intensos, faz parte de um plano de captura total do território palestino aprovado pelo gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no início de agosto e vem sendo preparado pelas Forças Armadas desde então.
Também nesta quarta-feira, o governo israelense determinou ao Exército a “redução dos prazos” para assumir os redutos do Hamas e derrotar o grupo terrorista palestino, embora não tenha divulgado datas específicas para a conclusão das ações.
Segundo Defrin, a nova ofensiva começou após confrontos com o Hamas, mas detalhes adicionais não foram informados. Para fortalecer a operação, Israel convocou 60 mil reservistas, preparando-se para lançar a ofensiva com força total.
Um comandante militar israelense explicou que a ação será “progressiva, precisa e seletiva”, abrangendo áreas onde o Hamas ainda mantém capacidade militar. A rádio militar antecipou que a operação poderá se estender até 2026.
Horas após o anúncio de Israel, o Hamas reagiu, afirmando que o plano demonstra um “desrespeito flagrante” pelos esforços de mediação, embora dois dias antes o grupo tivesse aceitado uma proposta de cessar-fogo do Egito e do Catar.
Nos últimos dias, bairros da Cidade de Gaza, como Zeitun e Al Sabra, sofreram intensos bombardeios, conforme relatos de moradores a agências de notícias.
A ofensiva gradual ocorre após divergências entre o comandante do Estado-Maior das Forças Armadas israelenses, tenente-general Eyal Zamir, e Netanyahu sobre o próximo passo para alcançar a vitória total contra o Hamas.
O tenente-general Eyal Zamir manifestou preocupações de que uma ofensiva ampliada na Cidade de Gaza poderia colocar em risco a vida dos reféns ainda mantidos pelo Hamas. Apesar disso, na semana passada, afirmou que governo e Exército estão alinhados quanto aos objetivos da operação.
Até o momento, o governo Netanyahu não divulgou uma data específica para a entrada mais ampla das tropas na cidade. Atualmente, mais de um milhão de palestinos vivem como refugiados em Gaza, muitos em campos de tendas, incluindo aqueles deslocados pela guerra iniciada em outubro de 2023.
A intenção de Israel de expandir o conflito após 22 meses de combates e mais de 61 mil mortos gerou críticas internacionais e resistência interna significativa. A situação se agravou após a morte de seis jornalistas na Faixa de Gaza, cinco deles da rede Al Jazeera, provocando forte repercussão global.
Especialistas também alertam para o risco de fome generalizada no território, uma consequência das restrições israelenses à entrada de ajuda humanitária, com distribuição de alimentos controlada e desigual.
Enquanto isso, Egito e Catar aguardam uma resposta formal de Israel a uma proposta de cessar-fogo de 60 dias, aprovada pelo Hamas, que aceitou liberar metade dos reféns restantes. O gabinete de Netanyahu, porém, exige a libertação total dos reféns e não indica disposição para uma trégua no conflito.
O ataque inicial do Hamas em outubro de 2023 resultou na morte de 1.219 pessoas, de acordo com a AFP com base em números oficiais. A resposta israelense matou mais de 61.500 palestinos, segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza, considerados confiáveis pela ONU.