A recente transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro para a Papudinha passou a ser interpretada, dentro e fora do Supremo Tribunal Federal, como um movimento que pode recolocar em pauta a discussão sobre prisão domiciliar. Embora não haja sinalização formal nesse sentido, a mudança de local alimentou leituras políticas e jurídicas nos bastidores da Corte.
Apesar disso, Moraes não sinalizou oficialmente a intenção de autorizar o benefício em curto prazo. Ainda assim, integrantes da Corte enxergam a mudança no regime de custódia como um gesto que abre margem para esse debate, especialmente diante da crescente pressão de aliados políticos e de questionamentos relacionados ao estado de saúde de Bolsonaro.
A Papudinha oferece estrutura considerada mais adequada do que a sala de Estado-Maior da Superintendência da Polícia Federal, onde Bolsonaro estava anteriormente. O espaço conta com quarto, banheiro, cozinha e área externa exclusiva, além de permitir maior tempo de visitas, banho de sol sem restrição e uso de equipamentos voltados à fisioterapia. A decisão foi tomada após uma série de conversas nos últimos dias.
Nos bastidores do STF, há a avaliação de que a transferência pode ter também um caráter estratégico, ao aliviar tensões em torno do caso, que vinham se intensificando com reiterados pedidos da defesa pela substituição da prisão por domiciliar.
Parte dos magistrados considera a possibilidade de conceder o benefício ainda no primeiro semestre de 2026, como forma de evitar que o tribunal seja responsabilizado por eventuais agravamentos no quadro clínico do ex-presidente. Bolsonaro tem enfrentado crises recorrentes de soluço e passou por uma cirurgia no fim de 2025.
Entre aliados políticos, a leitura é de que a mudança para a Papuda, somada ao diálogo com ministros da Corte, indicaria uma abertura para a concessão da prisão domiciliar. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), chegaram a manter conversas com integrantes do STF em busca de apoio à tese. Segundo pessoas que acompanham o tema, esses encontros antecederam a decisão de Moraes.
Apesar das interpretações, a posição predominante dentro do tribunal segue sendo de cautela. Magistrados próximos ao relator reforçam que os critérios legais para a concessão de prisão domiciliar humanitária permanecem inalterados e que cada pedido deve ser avaliado estritamente com base nos parâmetros jurídicos e de segurança pública, sem influência de pressões políticas.


